Introdução - II

De acordo com o relógio solar de Delta IV, era a hora que a tripulação deveria dormir e as equipes plantonistas assumiriam as funções vitais de navegação. O Almirante não tinha nenhuma vontade de ouvir os informes médicos sobre o estranho visitante antes do dia seguinte, mas tampouco sentia sono. De um modo ou de outro, sabia que os eventos daquele dia mudariam sua carreira para sempre. Mas tampouco tinha paciência de começar a preparar o relatório militar sobre a situação. E, afinal, estava mais curioso ainda.

Custou a se acostumar com os controles arcaicos e anti-intuitivos da sílica ofertada pelo velho. Assegurou-se com os desinfeccionistas que ela era segura para ser utilizada quando compreendeu que fora um erro simplesmente recebe-la das mãos de Iskarion. Mas estava tudo bem, e, agora, quando deveria estar dormindo, saltava de link em link passando incrédulo os olhos por informações que deixariam qualquer um abismado…

A lenda de Iskarion era uma estória comum por praticamente toda a galáxia de Bootes, e, possivelmente, em alguns outros setores próximos. O último dos grandes historiadores da Escola Alenita, Iskarion partiu a setecentos anos atrás junto a uma expedição científica que investigaria os confins da Galáxia em busca de novas civilizações alienígenas. A ideia era firmar contato pacífico e fazer o registro de tais civilizações, a princípio em todos os ramos do conhecimento social e biológico. Uma frota científica financiada pela Sacra União e repleta de pesquisadores partira escoltada por algumas naus militares para nunca mais retornar. Em determinado ponto muito além do espaço mapeado as comunicações desapareceram e nunca mais se teve notícia da expedição. Em épocas prósperas não era raro, sem sucesso, que audaciosos capitães independentes anunciassem a intenção de partir em busca da frota perdida. Alguns retornaram, mas da maioria nunca mais se teve notícia.

Quando o dia amanheceu, o Almirante, exausto, simplesmente não havia dormido. Descobrira, contudo, se a sílica fosse verdadeira, o destino da expedição e de Iskarion. Aquele mesmo Iskarion que tinha agora em sua nave. Mas, se realmente aquelas informações fossem reais, e não delírios enlouquecidos de um velho senil, porque ELES teriam auxiliado o trabalho velho historiador? E, afinal, porque teriam permitido que ele partisse com o resultado de sua pesquisa?

Sua primeira ordem do dia foi o retorno imediato para o espaço controlado pela Federação.

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Diário, XI, 35

Eu simplesmente não consigo entender porque eles me mantém vivo… Eu não me alimento há meses, talvez anos, mas com as substâncias que regularmente são injetadas em meu pescoço nem mesmo sinto fome. Pelo contrário, estou bem disposto o tempo inteiro. É estranho, mas eu poderia apostar que é como se eles estivessem felizes por eu me encontrar em seu lar. Serei uma espécie de bicho de estimação? Uma curiosidade alienígena? Ou teriam eles planos diferentes para mim?

Vi um a um de meus companheiros de missão serem mortos, e jamais esperaria algo diferente para mim. Mas desde que aquela que nomeei Ixtina entrou na minha mente, não posso reclamar de ter sofrido qualquer espécie de maus tratos. Foi como se houvéssemos conversado, mas é difícil explicar. Eles me deixam zanzar por todos os infinitos corredores de seu planeta colméia; protegem-me e são o tempo todo solícitos. Nunca interrompem meu caminho, nunca me proíbem de ir a algum lugar. Não se incomodam que eu escreva freneticamente na sílica. Será que compreendem o que eu estou fazendo?

Eles até mesmo me deixam ter acesso, sempre que quero, àquela que é sua Rainha… É fascinante, é muito difícil esquecer dela. Mas continuo escrevendo. Algum dia um homem lerá este texto?

Às vezes Ixtina está próxima. Se ela fosse… humana, juraria que estava interessada no meu trabalho. Creio que jamais saberei, infelizmente. Devo, contudo, interromper-me agora. Em breve eles chegarão, com suas imensas seringas, e novamente dormirei um sono profundo.

Introdução - II

Megalara Ranat Wilsonrtf Wilsonrtf