Introdução - I

unnamed.jpg

É inegável que foi intensa a comoção entre a tripulação da Belonave Delta IV da Vigésima Sétima Frota da Federação Kuroniana quando seus sensores detectaram, na vastidão perdida do espaço profundo que patrulhavam, o fraco sinal de uma espaçonave menor cuja sequência luminosa simplesmente não conseguiam identificar.

“Devemos destrui-la, Almirante?” – perguntou o armeiro encarregado dos torpedos de hidrogênio da imensa Belonave. “Não”, respondeu laconicamente o comandante. “Estamos usando um canal de emergência para conectar a Rede VII em Kuron, em busca de algum registro dessa sequência. Esperemos até que tenhamos uma resposta, já que nosso alvo parece simplesmente estar à deriva”.

Por mais que o Almirante demonstrasse calma, o restante dos militares estavam nervosos. A partir dos primeiros registros visuais era impossível identificar que nave seria aquela, e, considerando a região por onde navegavam, podia muito bem se tratar de uma nave-mina perdida de infinitas guerras anteriores.

Mas o Almirante teve certeza que aquele não seria um dia bom quando dois de seus oficiais disseram virtualmente ao mesmo tempo “Senhor… o senhor não vai acreditar nisto…”. Ele suspirou enquanto recebia primeiro a notícia de que a sequência pertencia à Sacra União, justamente a metrópole da qual a Federação obtivera sua independência a meros trinta anos. Era, contudo, uma sequência baseada em um conjunto de pulsos que não eram utilizados fazia seis séculos.

Antes que pudesse digerir a primeira notícia, o segundo oficial informou-lhe que havia sinal de vida pulsante dentro da pequena nave. “Mas que inferno…”, ponderou, enquanto decidia se o melhor não seria simplesmente explodi-la e se esquecer do evento. A verdade, contudo, é que estava curioso, e, dentro da sua imensa belonave, recusava-se a ter medo de qualquer coisa.

“Capturem-na e tragam-na a nosso hangar. Preparem os padrões de abordagem e segurança nível H. Eu irei junto”.

A espaçonave era irreconhecível. Lembrava as imagens de antigas naus civis ou científicas, mas parecia ter sido remendada por quase todo seu casco, com um tipo de tecnologia e material desconhecidos. Os soldados abriram-na com maçaricos de luz congelada. Algo em seu interior fungava, como se repleto de catarro. Não parecia nada perigoso, mas nenhum dos homens ousava baixar suas armas.

Finalmente, após alguns minutos de espera, saiu do interior um velho com aspecto esfomeado e insano, abraçado ao que parecia ser uma superfície de sílica transparente, similar, ainda que muito maior e mais grossa, às utilizadas até os dias de hoje para registros e atividades pessoais do dia a dia. O corpo do sujeito estava inchado e alquebrado, e não se tratava de alguém em seu estado normal.

unnamed-1.jpg

“Quem diabos é você?”, perguntou irritadiço o Almirante.

O velho coçou o queixo com uma das mãos, sem soltar a sílica. Algo se desgrudou da sua pele, mas era como se ele não notasse. Parecia que ele estava tentando entender… finalmente respondeu em uma linguagem que parecia com o Alto Istirno, falado tanto na Federação quanto na União e em mais dez entidades políticas próximas, mas soava, de algum modo, diferente e arcaico.

“D-desculpe. É que faz tanto tempo… Meu nome é Iskarion.”

De algum modo tentando romper a estranheza da situação, o Almirante disse: “Temos um Iskarion entre nossos tripulantes também. Seus pais resolveram igualmente homenagear o lendário historiador?”

O velho coçou a cabeça, e algo mais desgrudou-se entre suas unhas. Sem que ele reagisse, oficiais médicos aproximaram-se dele, com seus múltiplos aparelhos de exame.

“Não. Sou o único Iskarion historiador que conheço.”

Alguém riu ao fundo. O Almirante ordenou silêncio. “Você está brincando…”, mas, antes que pudesse terminar a frase, o velho se aproximou bruscamente, oferecendo a sílica ao oficial com um olhar suplicante.

“Tome!… É o meu livro mais… peculiar, eu diria… Err… ELES me obrigaram a escrevê-lo…”

Em seguida o velho caiu ao chão às gargalhadas, enquanto se coçava freneticamente. A equipe médica aproximou-se às pressas tentando dar algum auxílio, enquanto o Almirante contemplava o título da obra carregada e à mostra na sílica: “Megalara Ranat”.

Ponderava sobre o que poderiam significar aquelas palavras quando foi interrompido por um dos médicos: “Almirante… o senhor não vai acreditar na idade que este sujeito tem…”.

Introdução - I

Megalara Ranat Wilsonrtf Wilsonrtf